PASSAGEM



Foi-se o tempo em que as coisas eram simples como um café feito no fogão a lenha... Simples e saborosas. Existia uma arte na feitura do café, em seu preparo e até mesmo no saboreá-lo.

Coisas da roça.

Sentados ao redor da lamparina a querosene, enrolando seus cigarros de palha, os matutos esperavam pacientemente a lenha arder e queimar fazendo a água entrar em ebulição para depois apreciar o denso líquido preto escoar pelo coador de pano.  Suas canecas já preparadas eram postas abaixo do mesmo e na hora do beberico o aroma se misturava ao sabor. A prosa era animada e circulava em torno do dia de labuta no roçado. Tudo girava em torno do tempo. Um tempo certo. Medido. Pacientemente semeado e necessário. Um tempo para tudo amadurecer.

Mirella voltara daqueles dias em sua terra natal cheia de reflexões.

Alguma coisa em seu íntimo mudara. Aquela sensação de estar em câmera lenta estava impregnada em sua alma. Apesar do considerável desenvolvimento da cidade, seus pais ainda cultivavam a mesma vidinha simples de outrora. O cenário bucólico de sua infância não fora destruído pelo progresso e isso a deixava feliz.  Durante sua estada, em meio a tanta simplicidade, desejou intensamente que sua vida assim o fosse também. Pelo menos naquele curto espaço de tempo em que ali se encontrara, isso seria real. Mas (sempre existe um “mas”) precisaria voltar para sua vida cosmopolita.

Na rodoviária, beijou os olhos úmidos de sua mãe com promessas de um retorno em breve.

 Já era noite e o ônibus parecia compactuar com seu estado de espírito. A viagem de volta que, em geral é mais rápida, transformara-se numa longa e perpétua caminhada. Teria tempo para reflexões que a agitavam mentalmente. Sentiu um frisson, de novo aquela sensação de que borboletas revoavam em seu estômago ao relembrar sua estada naquele fim de mundo.

 Houve tempo para visitar seu pai no hospital, assim como houve tempo para sair de lá cheia de mágoas mal resolvidas. Estar com D. Marina amolecera seu coração. A saudade somada ao acolhimento que só as mães sabem dar dissipara toda revolta sobre os acontecimentos de outrora. Com esse sentimento de perdão e peito aberto, convencida a apagar qualquer dúvida sobre as posturas rígidas e ofensivas sofridas, se encaminhou ao encontro dele. Deitado sobre o leito frio de um hospital público, em condições precárias, estava o corpo debilitado de seu progenitor. Apesar de tudo, era seu pai e não podia deixá-lo ali. Faria um ajuste em suas economias. Decidiu por transferi-lo. Tomou algumas providências e transferiu-o para uma clínica particular onde poderia ser atendido com mais atenção e cuidados. Foi alertada de que o estado dele era delicado. Talvez não passasse daquela noite. Por uma inexplicável providência da vida, para aqueles que acreditam em coincidências, ele passou bem e obteve até uma melhora significativa. Sua melhora foi tão visível que houve tempo suficiente para que resmungasse e soltasse impropérios por estar naquele lugar rico que não poderia pagar. Ficou ainda mais furioso quando soube à custa de quem ali se instalara.

 A vida em nada lhe mudara o caráter e o gênio.

D. Marina tentava acomodar a situação mediando os sentimentos de ambos. Mirella já esboçava arrependimento. Não de tê-lo transferido, isso não, qualquer ser humano merece uma morte digna, dizia ela. Mas as atitudes rancorosas e egoístas de seu pai deixavam-na cada vez mais triste e todo aquele clima de perdão e amor que obtivera nos dias anteriores se dissolvera naquelas palavras rudes e ofensivas dirigidas a ela. 

Em seu peito um peso enorme a oprimia. Sentimentos confusos de raiva e compaixão trocavam de lugar como brincadeira de roda. Em frangalhos saiu do quarto, desceu as escadas do andar e foi até a cantina da clínica para comprar cigarros. Dirigiu-se à rua e sentou-se num banco em frente à entrada principal, num pequeno jardim que alegrava a arquitetura fria do local. Fumou aquele cigarro como se aliviasse sua fome de gritar e esbravejar. Levantou-se e caminhou um pouco pelo chão de pedrinhas chutando uma e outra até que, num rompante, soltou um grito de agonia caindo logo depois em compulsivo choro. Não percebeu o tempo passar. Recomposta voltou e ao chegar em frente a clínica avistou sua mãe aflita andando de um lado para o outro provavelmente a sua procura. Um frio arrepiou sua alma. Sabia o que iria encontrar na volta ao quarto.

No leito, seu pai descansava. Olhos cerrados com ar de quem dormia. Sua fisionomia retratava seus últimos sentimentos sofridos nesta encarnação. Tocou-o nas mãos e sentiu sua pele, ainda quente. Nada falou.

Enterrou seu pai e resoluta, com ele, todo um passado de brigas e ódio.

No entanto, Mirella sabia que sua história, na verdade, não podia ser enterrada assim. Ninguém consegue enterrar o passado sem passar por um longo processo de terapia.

De alguma forma ele sempre retorna. Os pesadelos podiam confirmar esta tese.

 Já em casa, refeita da viagem e de suas reflexões, lembrou-se de um texto que leu, recentemente, da escritora e poeta Marla de Queiroz: “Não nasci para ser adequada, coerente, adorável. Nasci para ser gente. Para sentir de verdade. Tenho vocação para transparências e não preciso ser interessante o tempo todo. Por isso, não espere que eu supere as suas expectativas: às vezes, nem eu supero as minhas.”

É isso...

 

 

 

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