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Mostrando postagens de janeiro, 2021
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  Nos dias que seguiram após sua viagem, Mirella constatou que durante sua ausência mudanças sutis haviam ocorrido naquele prédio. Foram dias em que ela havia se enterrado de vez assim como tentara fazer com seu passado e seu mundinho passara a convergir para o apartamento onde as paredes desbotavam em cores pálidas condizentes com suas emoções. Olhava para aquelas paredes e refletia que teria mais tempo para estar com elas. Seria uma boa ideia repintá-las. Mirella estava desempregada!                                                                                    Ao voltar a trabalhar foi um choque quando encontrou sobre sua mesa a carta de demissão reportando-lhe a notícia de que seus trabalhos não seriam mais necessários à empresa. Perdera o pai e o emprego ...
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  PASSAGEM Foi-se o tempo em que as coisas eram simples como um café feito no fogão a lenha... Simples e saborosas.  Existia uma arte na feitura do café, em seu preparo e até mesmo no saboreá-lo. Coisas da roça. Sentados ao redor da lamparina a querosene, enrolando seus cigarros de palha, os matutos esperavam pacientemente a lenha arder e queimar fazendo a água entrar em ebulição para depois apreciar o denso líquido preto escoar pelo coador de pano.  Suas canecas já preparadas eram postas abaixo do mesmo e na hora do beberico o aroma se misturava ao sabor. A prosa era animada e circulava em torno do dia de labuta no roçado. Tudo girava em torno do tempo. Um tempo certo. Medido. Pacientemente semeado e necessário. Um tempo para tudo amadurecer. Mirella voltara daqueles dias em sua terra natal cheia de reflexões. Alguma coisa em seu íntimo mudara. Aquela sensação de estar em câmera lenta estava im...
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                        A VIAGEM O dia amanhecera cinzento como de costume. Era ainda muito cedo quando Mirella fechou a porta de seu apartamento e desceu as escadas do prédio carregando sua mala e toda sua expectativa indo em direção a um passado indecifrado. Precisaria pegar o metrô até a Rodoviária. Faria sua viagem de ônibus já que perdera seu carro por conta das dívidas que fizera em seu último relacionamento. Luis era um homem muito persuasivo. Naquela hora da manhã as estações pareciam formigueiros. As pessoas se acotevelavam e empurravam em busca de espaço. Acostumara-se a este inferno matinal desde que passara a fazer seu percurso para o trabalho usando o metrô. Chegara, inclusive, a fazer alguns conhecimentos apesar de não ser muito afeita a conversas pela manhã. De vez em quando era atenciosa e foi assim que conheceu Íris, uma mulher interessante que procurava apartamentos para alugar. Ela indicou o Prédio. ...
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  A FILHA PRODIGA Retorno do Filho Pródigo – 1667- Bartolomé Esteban Murillo Ando cansada de muita coisa! Pensava Mirella ao sentar-se em seu sofá na sala e deixar cair no chão uma carta.  Acabara de desligar a TV onde os jornais anunciavam as retrospectivas do ano.   Ano Novo, tudo velho...   Continuou em suas divagações.   Quando me vi aqui, nesta Cidade, minha intenção sempre foi a de recomeçar.  Esquecer e recomeçar. Acreditava que depois de tantas andanças poderia esquecer meu passado e recuperar minha lucidez. Durante muito tempo vivi uma vida desgovernada. ( Essa palavra vem bem a calhar neste momento ). De que me adiantou essa constante preocupação em mudar de endereço se o passado, feito um parasita, me acompanha onde quer que esteja?   Ando cansada do meu emprego, dos meus pensamentos, de mim mesma. Dessa forma de me governar; preciso protestar e gritar. Quem sabe fazer um quebra-quebra geral dos meus conceitos, regras, sei lá....