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Mostrando postagens de novembro, 2020
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  EMBALOS DE SÁBADO   Naquela manhã de um sábado quente, Mirella chegou esbaforida em casa.   Depois de correr seus quilômetros diários, precisou subir as escadas do prédio já que o elevador mais uma vez resolveu emperrar.  Não quis esperar o síndico para consertar aquela geringonça ultrapassada que, paralisado à sua frente, só servia para atrasar seu dia. Ainda era cedo e pretendia faxinar o apartamento como sempre fazia aos sábados. Ao adentrar foi direto para a área de serviço onde tirou os tênis deixando-os no parapeito da janela para arejar e, em seguida as meias, colocando-as no cesto de roupa suja. Sensação gostosa essa de liberar os pés. Já na cozinha, abriu a geladeira e sorveu enormes goles de água no gargalo da garrafa que a esperava, oferecida, naquela prateleira vazia de seu refrigerador. Isso a fez lembrar que precisava fazer compras. Enrolou os cabelos torcendo-os e os prendeu com uma presilha. Pegou o material de limpeza foi até a sala e coloc...
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  Tempus, oris [1] De um sobressalto Mirella despertou. Peito arfando, agitado, gotas de suor escorriam pelo rosto. Sempre o mesmo tipo de sonho. Sentou-se entre os lençóis emaranhados, recompôs os cabelos e procurou pelo cigarro. Tateou na cabeceira da cama, em suas mesinhas que ficavam ao lado da mesma e só depois lembrou que havia deixado um maço para alguma emergência nas gavetas da sua mesa do escritório, no trabalho. Fazia tempo que não fumava. Havia prometido que naquele ano pararia. Promessa feita a Yemanjá na virada do ano. Estava conseguindo se não fossem os sonhos... Fixou os olhos no despertador para ver as horas. Só uma brecha de luz entrava pela persiana pouco iluminando aquele ambiente. Acendeu a luminária que ficava acima da cama. _ Não é possível! 3h04 da madrugada! Levantou-se e foi até a cozinha para ver se encontrava o sono, quem sabe ele havia fugido e se escondido por ali. Desejou ardentemente encontrá-lo naquela fatia de pudim de leite ou na compota...
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  Cotidiano O relógio a despertou às 6h45. Levantou-se com o corpo ainda amassado da noite mal dormida, rolou na cama por alguns segundos, tentou voltar a dormir. A consciência sussurrava ao seu ouvido palavras de responsabilidade chamando-a aos deveres daquele dia... Só mais alguns segundinhos, pensou. O sol da manhã entrava pelas frestas da persiana que propositadamente ficavam entre abertas. Gostava de sentir aquele calorzinho em sua pele. A cama ficava posicionada de tal forma que captava toda energia solar e isso a fazia sentir que tinha luz naquele ambiente triste. Novamente o som irritadiço do despertador, máquina infernal, avisando que já era tempo de parar de sonhar. O que fazer então senão sair daquele abraço aconchegante de seus lençóis e encarar mais um dia! Levantou-se cambaleante, a camisola desfeita deixava cair uma de suas alças desnudando seus seios e ao olhar-se no espelho, viu-se mulher. Uma mulher bonita, simples, madura! Lembrou-se de sua adolescência e d...
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  PRÓLOGO     Faz alguns anos que me mudei para esta Cidade. A inquietude da juventude borboleteava em minha alma e me fazia sentir um desajuste quase que mórbido de não pertença àquele lugar onde nasci. Não suportava mais ficar a mercê de uma legião de gente sem perspectivas e sem qualquer possibilidade de abertura num mundinho provinciano e hipócrita. Nascida num mar de tubarões machistas e sereias recalcadas. Na rebeldia dos meus dezoito anos decidi colocar a mochila nas costas e me despedi daquele passado. Sem qualquer vínculo foi mais fácil seguir estrada. Passei de lagarta a frugal borboleta e pousei este meu corpo frágil, nem por isso fraco, ainda muito nova, em muitas estações. Vivi situações que me deram mais do que experiência DE vida, deram-me noção DA vida. Quando cheguei neste prédio, já estava cansada das batalhas. Fincaria raiz. Arrumei um emprego de secretária e dei continuidade a minha vida. Não percebia que estava justamente repetindo os padrões do...