EMBALOS DE SÁBADO



Naquela manhã de um sábado quente, Mirella chegou esbaforida em casa.

 

Depois de correr seus quilômetros diários, precisou subir as escadas do prédio já que o elevador mais uma vez resolveu emperrar.  Não quis esperar o síndico para consertar aquela geringonça ultrapassada que, paralisado à sua frente, só servia para atrasar seu dia. Ainda era cedo e pretendia faxinar o apartamento como sempre fazia aos sábados.

Ao adentrar foi direto para a área de serviço onde tirou os tênis deixando-os no parapeito da janela para arejar e, em seguida as meias, colocando-as no cesto de roupa suja. Sensação gostosa essa de liberar os pés. Já na cozinha, abriu a geladeira e sorveu enormes goles de água no gargalo da garrafa que a esperava, oferecida, naquela prateleira vazia de seu refrigerador. Isso a fez lembrar que precisava fazer compras. Enrolou os cabelos torcendo-os e os prendeu com uma presilha. Pegou o material de limpeza foi até a sala e colocou seu CD favorito no aparelho de som.

No ritmo vibrante dos sucessos dos anos 70 deu início a sua ilíada. Efeito inebriante que a música causa em nossos corpos quando nos deixamos levar por suas notas. Momentos que nos fazem recordar sejam boas ou más lembranças.

 

E foi assim, absorvida nestes pensamentos que Mirella, enquanto arrumava a casa, reviveu seus momentos com Luis...

 

Há uns dois meses, finalmente, ele ligou e os dois marcaram um primeiro encontro. Saíram para jantar e terminaram a noite dançando num espaço descolado que tinha na Cidade. A noite foi muito agradável e desde então não perderam mais contato. Procurando minimizar a saudade, entre uma saída e outra, mantinham telefonemas, e-mails e conversas pelo msn. Estavam envolvidos e Mirella tinha certeza de que se apaixonara. Foi o que a encorajou a terminar com Carlos um relacionamento que vinha mantendo há quase sete anos e que já não ia lá muito bem.

Luis era um homem de aparência exótica (padrão que Mirella dificilmente fugia).

Muito magro, alto, com ombros largos, mãos grandes e habilidosas. Usava cavanhaque e um brinco na orelha esquerda. Tinha um quê de cigano. Os olhos de Luis emanavam mistério. Nestes dois meses, só o fato dele ser fumante que a desagradava. Detalhe esse que Mirella preferia ignorar por motivos já conhecidos. Durante seus encontros, foram poucas as vezes que Luis investira num contato mais íntimo. Mirella se deleitava entre os braços magros, porém fortes, dele.  Seu peito ardia de paixão ao ser tocada e um calor excitante a dominava quando se beijavam. Ela se oferecia sem pudores. No entanto Luis disfarçava, se esquivava e despedia-se ou adormecia com Mirella aconchegada em seus braços visivelmente evitando uma intimidade maior.

Isso perturbava Mirella que procurava não tocar no assunto, por enquanto.

Houve uma vez que Luis a interpelou:


- Você deve estar estranhando esse meu jeito não é?

 

- Como você mesmo disse: é o seu jeito!

 

Luis abraçou-a carinhosamente agradecido pela sutileza de sua resposta.

Não tocaram mais no assunto, e agora, esse silêncio...

 

Foi repentinamente que um vazio tomou conta do coração de Mirella. Ela sabia de cor os dias que silenciaram sua paixão. Já fazia um grande espaço de tempo desde a última vez que tivera notícias de Luis: Por que, novamente, este sumiço? Criou muitas hipóteses e óbvias, claro: Seria ele casado? Gay? Teria alguma disfunção? Deveria desistir? Insistir? Mas aqueles beijos...

 

Saiu de seu transe apocalíptico quando ouviu, de súbito, umas pancadas no chão de seu apartamento. Sorriu um sorriso tranquilo e de paz quando percebeu que deveria ser o morador do andar abaixo do seu reclamando de alguma coisa. Talvez dos pensamentos de Mirella que deveriam estar ecoando pelos cantos da casa mais alto que o som de seu aparelho de CD. Diminuiu o volume da música e esperou que as pancadas cessassem. Já estava na hora mesmo de parar de sofrer. Acreditando que tudo na vida tem uma explicação, preferiu sossegar seu coração entregando-se as atividades diárias.

Faxinar era a palavra do momento. E isso podia significar muitas coisas; limpar, arrumar, tornar agradável o ambiente ou sua vida, quem sabe!

Vida essa que não se apresenta como nos sonhos e quem acredita nisso acaba iludido. Mirella, sendo uma mulher madura, sabia disso. Seu problema era que mergulhava em suas paixões de corpo e alma sem cilindro de oxigênio. Sofria de carência inconsciente e alimentava um desejo quase insano de encontrar sua tão prometida metade.

Os sentimentos e o prazer falavam mais alto e não a deixavam raciocinar direito. Por conta disso, seus relacionamentos eram, invariavelmente, problemáticos e confusos.

Ou seria ela confusa e problemática?

Enfim casa cheirosa, mobílias no lugar e um corpo exausto numa mente hiperativa. Assim mesmo, nessa relação desproporcional como a vida de Mirella.

 

O telefone tocou.                        

 

Sempre foco de suas ansiedades, esse sonoro ruído a tirava das divagações habituais e a trazia para realidade. Apesar de estar à espera de uma ligação de Luis, naquele momento não pensava nisso e atendeu displicentemente. Qual não foi sua satisfação ao ouvir a voz dele do outro lado do fone. Tentou disfarçar sua surpresa. Nem deu tempo, Luis foi breve. Marcou um encontro para o dia seguinte, ali mesmo, na casa de Mirella e pela seriedade imposta por sua voz ela preferiu não mencionar nada. 

Nenhuma cobrança, nenhuma indagação.

 

Desligou o aparelho com a mesma e inconformada situação anterior; cheia de dúvidas e mistérios.

 

Precisaria de muitos livros para conseguir dormir aquela noite!

 

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