LUZ
NO FIM DO TÚNEL
“E eu acredito no mecanismo do infinito,
fazendo com que tudo aconteça na hora exata.” (Caio F. Abreu)
Inicio de ano pesado pensou Mirella.
Desempregada, órfã de pai, mãe distante, família esquisita e sem
nenhum namorado.
Precisa dizer ou pedir
mais alguma coisa?
Até o momento ainda não
havia encontrado nenhum trabalho. Ou talvez não tenha se esforçado o suficiente
para consegui-lo. Aquele clima sombrio no prédio a contaminara de tal forma que
se deixou dominar por pensamentos negativos. Não era muito do seu feitio se
entregar assim. Mas tudo ao mesmo tempo? É sério isso, vida?!
Foi ficando negligente
e se abandonando. O único consolo era o cigarro: voltou a fumar!
No entanto, apesar de
tudo, sempre existe outro lado da história e com Mirella não seria diferente.
Em meio a tantos reveses ela havia conhecido Íris, sua vizinha. Não fosse pela
presença dela tudo poderia ter sido muito pior.
Íris era uma mulher
independente, forte e muito alegre. Trabalhava com consultas de Tarô. Alma leve,
espiritualizada e possuidora de uma simplicidade e humildade ímpares. Traços fisionômicos
fortes que mais lembravam uma cigana, apesar de seu jeito simples e sóbrio em
se vestir e enfeitar. Percebendo o
silêncio e sumiço de Mirella, numa tarde dessas, resolveu bater a porta dela com
a típica desculpa de conseguir uma xícara de açúcar. Com um pouco de má
vontade, nem tanto por Íris, mas por si mesma, Mirella abriu a porta e ofereceu
o sofá para que Íris aguardasse enquanto fosse a cozinha buscar o açúcar. Adentrando
o apartamento, com sua sensibilidade intuitiva, Íris sentiu o clima pesado que
pairava no ar. Pode observar, de relance, a pequena biblioteca que estava
improvisada em um canto da sala com livros variando assuntos esotéricos, romances
e biografias. Mirella retornou com a xícara de açúcar e, percebendo o interesse
de Íris em seus livros, depositou a xícara sobre a mesa da sala juntando-se a
ela. Foi o suficiente para dar início a uma longa conversa. Falaram sobre
energias, espiritualidade, positividade e todo tipo de assuntos desde
esoterismo até terapêuticos. De alguma forma, Íris ia costurando os assuntos
alinhavando-os com os sentimentos de Mirella. Apesar das contrariedades com que
resmungava a cada argumento de Iris, essa não se deixava abater. Até que, em
determinado momento, a astrologia surgiu em meio algumas falas sobre
esoterismo. Iris notou que em pouco
tempo de conversa sobre esse assunto o semblante de Mirella se modificara e seus
olhos brilhavam. Dissertaram trocando, por longo tempo, ideias sobre crenças,
mitologia e tudo que envolvia a energia dos astros na vida do ser humano. As
duas descobriram afinidades que as encantaram. Quando deram por si já estava
escurecendo. A conversa foi tomando um caminho de descontração tal que nem
perceberam a passagem do tempo. Ao final daquela tarde que foi aos poucos dissipando
o clima inicial que se encontrava naquele ambiente, Iris se despediu oferecendo
a Mirella uma consulta de Tarô. Poderia ser quando ela pudesse e não precisava
se preocupar com o pagamento; um chá com bolo faria bem esse papel. Fechando a porta, Mirella notou que sentia uma
leveza inexplicável. Algo dentro dela havia amenizado. Foi então que viu a xícara
de açúcar sobre a mesa. Já ia voltar para chamar a vizinha quando, de repente,
se deu conta do que havia acontecido ali. Sorriu...
Uma luz surgiu no fim
do túnel de seu coma existencial.

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