A FILHA PRODIGA


Retorno do Filho Pródigo – 1667- Bartolomé Esteban Murillo

Ando cansada de muita coisa!

Pensava Mirella ao sentar-se em seu sofá na sala e deixar cair no chão uma carta. 

Acabara de desligar a TV onde os jornais anunciavam as retrospectivas do ano.

 

Ano Novo, tudo velho...  Continuou em suas divagações.

 

Quando me vi aqui, nesta Cidade, minha intenção sempre foi a de recomeçar.  Esquecer e recomeçar. Acreditava que depois de tantas andanças poderia esquecer meu passado e recuperar minha lucidez. Durante muito tempo vivi uma vida desgovernada. (Essa palavra vem bem a calhar neste momento). De que me adiantou essa constante preocupação em mudar de endereço se o passado, feito um parasita, me acompanha onde quer que esteja?

 

Ando cansada do meu emprego, dos meus pensamentos, de mim mesma. Dessa forma de me governar; preciso protestar e gritar. Quem sabe fazer um quebra-quebra geral dos meus conceitos, regras, sei lá. Que vida é essa que levo? Nada de amigos, de vida social. Vivo na tríade: Trabalho-casa-trabalho. Sempre imaginei que depois dos 40 anos estaria com minha vida estabilizada, um companheiro ao meu lado e usufruindo de facilidades que este tipo de vida proporcionaria. Quiçá um cartão de crédito pago!  E o que tenho? Dívidas, solidão, insônia e mais inquietações. Quem pode ser feliz assim? Um ano perdido; caminhos bifurcados, escolhas erradas. Ando muito cansada de tudo.

 

Pensando bem, consegui me livrar do vício do cigarro. Ao menos isso...

 

Levantou-se e recuperou a carta que estava no chão. Fitou-a como se a lesse maquinalmente. Em plena era da informatização Mirella recebia uma carta escrita à mão. Logo que a viu no escaninho de correspondências do prédio pode averiguar que se tratava de notícias de seu passado. Andando pela casa, sem rumo certo, releu a sentença: "Mirella, seu pai está morrendo. Em seus delírios chama por seu nome. Está confuso. Consegui seu endereço com o Bentinho. Ele veio por aqui visitando a família. Por favor, tente esquecer o que passou e venha ver seu pai. Não sei quanto tempo ainda ele fica vivo. Sua mãe.” Ao acabar de ler aquelas palavras escritas em um papel tão chinfrim e com uma letra trêmula de quem se aventurava a escrevê-las, percebeu que já estava no banheiro em frente ao espelho. Apoiou as mãos na pia e fixou o olhar apertando os olhos como se quisesse se reconhecer.

 

O tempo, implacável tempo!

 

Onde estavam aquelas sardas que a deixavam com cara de menina apimentada? E os seios minúsculos que teimavam em brotar por baixo da camiseta? Onde achar o brilho daqueles olhos cheios de inocência e sorrisos cheios de graça e alegria? Ficaram nas recordações de uma infância tranquila que não premeditava uma adolescência conturbada. Sempre fora uma criança agitada, travessa, esperta e cheia de questionamentos. Seus pais, pessoas muito simples e de pouco estudo viviam sem respostas para suas perguntas o que aumentava sua angústia em querer descobrir o mundo. Essa ânsia de saber crescia paralelamente a sua beleza física. Na adolescência, quando seu raciocínio era mais lúcido, se assim se pode afirmar, tudo piorou. Percebia que aquelas pessoas de sua cidade não lhe entendiam e não acompanhavam seus pensamentos. Não como ela imaginava. Vivia às turras com seus pais. Era filha única, o que piorava a situação. Tivera um irmão mais velho que morreu ainda jovem. Mirella era muito pequena quando isso aconteceu e por isso não se lembrava do irmão a não ser pelas poucas fotografias que existiam na casa. A morte dele estava envolta em mistérios que ela nunca conseguiu descobrir. Parecia que havia um pacto de silêncio entre seus pais e aquela cidade. Eles decidiram enterrar o assunto junto ao túmulo do filho de forma que nunca mais se ouviu falar nada. Mas Mirella, em sonhos, muitas vezes via seu irmão. Terrível, como só ela, exageradamente dizia vê-lo pela casa andando feito zumbi. Quando comentava tal feito com os pais, os mesmos ficavam apavorados e queriam levá-la para a igreja para que o padre a exorcizasse. Ela então fugia e se escondia até que passasse a ira deles. Nestas horas contava sempre com Bentinho, seu melhor amigo, que lhe dava cobertura. Passou então a esconder muitas coisas. Cresceu rodeada de gente preconceituosa e ignorante. Mirella passou a viver em mundo paralelo. Ao atingir a maioridade, compreendeu que não pertencia àquele lugar. Foi quando houve o escândalo que a fez deixar a cidade e cair no mundo.

 

Maldita carta!

 

Por que voltar? Foi renegada por seus pais! Ela fazia questão de enterrá-los assim como os mesmos fizeram com a morte de seu irmão! Sequer lembrava mais deles. Na verdade, esforçava-se para esquecê-los. Se não fossem pelos sonhos - ou seriam pesadelos?! E agora esta carta que a chamava para uma volta ao passado...

 

Definitivamente: a vida é cíclica!

 

Muitas vezes se faz necessário dar um passo para trás para que se possa seguir em frente! Quem sabe indo de encontro ao seu passado ela poderá encontrar respostas para seu futuro? Quem sabe?

De qualquer forma será bom sair um pouco da balbúrdia em que sua vida e a vida da cidade se encontram nesse momento. Encorajou-se e foi tirar a mala que estava na parte superior do armário. Espanou a poeira e começou a se preparar para a viagem.

 

 

 

Comentários

  1. Como sempre, amando cada episódio!!!

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  2. A Mirella vai se encontrar e superar as dificuldades!

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    1. Com certeza... essas fases fazem parte da vida e ajudam a amadurecer!!! Obrigada pelo comentário e participação! :)

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