TEMPO ESGOTADO!
Depois das fortes emoções vividas tudo parecia voltar ao normal
nos meses que se seguiram.
Luis era um amante extremamente ardente e
como se diz por aí, na gíria, o “número” certinho de Mirella. Sendo os dois
maduros não cabia na relação sexual situações que pudessem melindrá-los.
Viviam intensamente aqueles momentos seguindo, obviamente, com toda segurança
que a situação pedia. Em uma relação entre pessoas adultas não cabe inverdades
e ambos sabiam que deveriam respeitar este código. Com isso se permitiam viver
tantas fantasias quanto fossem possíveis.
No entanto, Mirella começou a perceber que
seus sentimentos oscilavam. Atitudes e situações que a levavam a crer que
poderia estar enganada. Um questionamento se instalou de tal forma na sua mente
que sua inquietude começou a transbordar em forma de impaciência e isso,
certamente, refletia na relação deles.
Será que Mirella sentia por Luis paixão ou
compaixão?
Com o tempo, ele foi se instalando em
sua casa com generosa frequência. Volta e meia se dizia sem dinheiro e fazia
empréstimos a ela com o devido cuidado de deixar claro que saldaria a dívida
logo recebesse seus pagamentos. Mirella insistia em querer saber mais sobre a
atividade profissional dele. Segundo Luis, sua função era de assessoria. Mas na
realidade Mirella acabou descobrindo que, simplesmente, ele vivia de “bicos”.
Ele não conseguia manter um emprego por muito tempo. Batia no peito e dizia que
não nasceu para ser empregado e sim chefe. Segundo sua própria versão: explodia
sempre com seus superiores, que em geral, para ele, eram sempre burros.
Tipicamente coisa de leonino que usa seu
pior lado, justificava Mirella. São orgulhosos demais para se
subordinarem a uma chefia. Triste constatação! Triste situação que
Mirella teimava em não enxergar.
Naquele dia ela saiu mais cedo do trabalho
e chegando ao prédio, passando pelo hall, reparou um burburinho diferente do
habitual. Ouviu comentários sobre a saúde frágil de Seu Célio, o morador do
apartamento 106 e parecia que era sério! Apiedou-se do mesmo e seguiu seu
caminho. Queria chegar logo em casa e descansar. Tinha sido um dia estressante
no escritório.
Assim que saiu do elevador, o qual por um
milagre funcionou naquele dia, pode sentir ainda no corredor o cheiro
insuportável de cigarro que impregnava o ar. Isso a fez lembrar que deveria ter
sempre em mente essa sensação para que não voltasse mais a fumar. Sentiu
náuseas e um leve mal estar invadiu seu corpo.
Luis estava ali.
Ao entrar o viu na sala deitado no sofá,
diante da TV, com um cinzeiro repleto de bingas de cigarro.
Percebendo a presença dela, ele se levantou e foi ao seu encontro.
- Chegou mais cedo, criança! - Beijou-lhe de leve a boca. Notou um franzir de testa. Ignorou.
- Já te pedi muitas vezes para não me tratar assim... e esse cheiro?! Sabe que detesto!
Mirella estava visivelmente irritada.
Luis pegou o cinzeiro e, com má vontade,
jogou as cinzas no lixo.
- Já vi que seu dia hoje não foi nada bom,
né?
Rispidamente Mirella resmungou alguma
coisa e foi pro quarto.
Luis ouviu o som da água que caía do
chuveiro e foi até a cozinha preparar algo para comerem. Preferiu não falar
mais nada para não piorar a situação.
Mirella saiu do banho, enrolou a toalha na cabeça, vestiu um robe de seda confortável, calçou as sandálias e, um pouco mais relaxada foi ao encontro dele na cozinha. Estava faminta. Preferiu mudar o assunto.
Enquanto comiam trocavam
experiências sobre o dia.
- Quando cheguei ao hall do prédio me
pareceu ouvir que seu Célio está mal. Vai ter que ser internado.
- Aquele velho mulato? Bem feito.
Mirella surpreendeu-se com o tom de Luis.
- Luis! Não fala assim. Seu Célio é um
senhor muito distinto... tem idade bem avançada. Acho que mais de 90
anos!
_ Azar o dele.
- O que ele te fez para tratá-lo dessa
forma? Nem o conhece direito!
- Andei sondando por aí. Dizem que ele é
bem ranzinza. Só podia, se ao menos não fosse ... você sabe... mulatinho... essa
raça é fogo!
Mirella não conteve a risada:
- Ahahaha você só pode estar brincando!
Mudando o tom da voz ela o interpelou:
- Não conhecia esse seu lado tão
implicante, radical e preconceituoso.
Percebia-se um ar de decepção na voz dela.
Luis não ligou e, com certo entusiasmo, desfiou
todo seu conhecimento e julgamento sobre a suástica e os mandos e desmandos de
Hitler, a guerra e o holocausto, colocando em questão o racismo, fascismo e
insistindo na comparação feita ao senhor Célio. Enquanto ele falava, Mirella
fingia ouvi-lo. Seu pensamento divagava. Estaria ouvindo mesmo tudo aquilo do
homem pelo qual se apaixonara e que se mostrara tão frágil e sensível há tão
pouco tempo?! Como poderia estar tão enganada?
A comida não lhe caiu bem.
Esperou pacientemente que Luis terminasse
sua dissertação e, desculpando-se, alegou estar cansada demais. Preferiria
dormir sozinha aquela noite. Ele ainda tentou provocá-la se fazendo de
vítima como de costume, afinal só porque chamou o tal vizinho de mulatinho
ranzinza ela o mandava embora? Tentou se desculpar. Mirella foi implacável em
sua decisão. Restou-lhe então acatar o pedido.
Foi a última vez que Luis entrou naquele
apartamento...

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