"Sou
uma parte de tudo aquilo que encontrei no meu caminho." (Alfred Tennyson)
SEGREDOS
-
Vidinha chinfrim, pensava Mirella. Estamos chegando ao final do ano e nada
muda.
Entra ano, sai ano e ela continuava naquela habitual
tortura de se enfiar num escritório cinza para depois ir para sua casa,
habitada num edifício cinza. Cinzas eram as borras de cigarros deixadas em seu
lixo, cinzas eram seus pensamentos cheios de hábitos e manias. Cinzas eram as
nuvens que desenhavam o céu naquela tarde chuvosa de um feriado sem graça.
- Quem manda ser burra. Depois de se endividar por causa de
homem tem mais que ficar enfurnada em casa só imaginando onde poderia estar se
não estivesse tão dura!
Duras escolhas. Duras consequências.
Era um dedo podre para homens ou então seu “cupido tinha
miopia”.
Estava sozinha novamente. E, decididamente, Mirella não
sabe ficar sozinha.
Levantou-se da cama e foi até a escrivaninha para ligar o
computador. Fazia um tempo que não navegava na internet em busca de
entretenimento. Havia desistido das redes sociais e dos sites de
relacionamentos. Quem sabe teria ali, naquela máquina cinza metálica, alguma
alegoria para seu dia. Deixou-o carregando e foi até a cozinha pegar um café.
No caminho, ligou o rádio. Ouvir música era um de seus
hobbies. Coincidência ou não, tocava naquele instante justamente uma de suas
prediletas! Seria um bom sinal?
Saracoteou o esqueleto um pouco e já voltou mais
animadinha para o quarto. Clicou na página da rede social para acessar seu
perfil. Precisava lembrar a senha! Qual era mesmo? Tentou por alguns segundos
até que conseguiu. A página abriu e ela se assustou com a quantidade de
convites para aceitar amizades. Engraçado, de onde tiraram que aqueles seres
eram seus amigos? Tinha gente ali que ela nunca vira em sua vida. Foi
descartando um por um. Repentinamente um nome chamou sua atenção. Nunca foi
muito boa para guardar nomes. Era ele sim, conhecia bem o dono daquele sorriso.
E bastou olhar por um instante aquela foto que um rebuliço acometeu seu estômago
feito borboletas revoando e a fez viajar no tempo...
Um tempo de sua conturbada adolescência quando os sonhos
eram confundidos com a realidade e havia certezas absolutas. Uma vida cheia de
aventuras inconsequentes que riscam cicatrizes na alma. Momentos
irrecuperáveis que deixam a ilusão de que tudo poderia ser diferente se...
Era ele sim: Bentinho.
Um pouco diferente, óbvio, marcado pelas mudanças do tempo;
cabelos grisalhos, pele cheia de sinais da idade, um pouco acima do peso. Não
mais Bentinho e sim agora Sr Benedito. Só uma coisa não havia mudado: o
sorriso, esse era inconfundível! Mirella não queria admitir, mas Bentinho tinha
o dom para desestabilizá-la. Quando jovens tudo era permitido. Viveram momentos
intensos, proibidos, cheios de paixão. Ela se entregou de tal forma que não
mediu consequências em suas atitudes e numa cidade pequena, sabe com é, as
notícias não tem tempo de serem digeridas. Virou chiclete nas bocas fofoqueiras
onde as palavras eram cuspidas no desgaste dos julgamentos. Acabou achincalhada
e desprezada por seus pais. Saiu de casa e quando buscou abrigo nos braços
daquele que acreditava que a aceitaria, sofreu o duro golpe da indiferença.
Para piorar a situação descobriu uma gravidez indesejada que foi resolvida na
base da clandestinidade dos frios quartos de clínicas obscuras que cumpriam o
“duro” dever de aniquilar vidas. Não tinha mais o que fazer naquela cidadezinha
de merda. Caiu no mundo e nunca mais olhou para trás. Jurou esquecer tudo e
seguir em frente. Seria feliz, apesar de tudo. O passado não lhe pertencia
mais, até aquele momento.
A curiosidade foi maior que o desejo de desprezo. Aceitou o
convite de amizade. Queria bisbilhotar sobre a vida dele e descobriu que estava
casado, com filhos e bem sucedido. Por que essa aparição agora? O que a vida
tentava lhe mostrar? Tudo que ela mais desejava era esquecer seu passado.
Fizera questão de apagá-lo sem sequer sentir remorso, retirando do mapa de sua
vida aquela cidadezinha hipócrita.
Tomou um gole do café que já esfriava.
O gosto da nicotina avivou em sua boca. Salivou vontade de fumar.

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