“O tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou deste minuto, desta hora, desta vida” (Mario Quintana)

VIRANDO PÁGINAS

Aquela noite em breu total serviu pelo menos para uma coisa: Mirella fez um novo conhecimento no Edifício. Talvez ela já possa até considerar o Frei, “amigo” (sim, nada de Padre, ele é Frei). E "amigo" é uma palavra que tem um significado muito forte em seu vocabulário sentimental. Mas com certeza foi uma ótima experiência.

Tanta coisa aconteceu depois daquela noite à luz de velas que nem sei por onde começar...

Chegamos a uma época do ano que ela preferiria não ter que enfrentar. As benditas festas e comemorações que sempre a deixa enojada por conta das hipocrisias que assolam as pessoas. Tinha motivos pessoais que a levava a detestar o Natal e nesse ano, especificamente, ela adoraria tomar um comprimido e dormir...

Mirella recuperou seu contato com o Bentinho - aquele passado que ela não queria trazer para o presente - e após algumas conversas pelo msn marcaram um encontro. 

Criar expectativas sobre a possibilidade desse encontro foi desesperador para Mirella. Como será que ele a veria: envelhecida, feia?! E se ele tentasse algo?! E se isso ou aquilo. Tantos “achismos”. Baita ansiedade! Não teve jeito: já tinha marcado o encontro, agora era relaxar e encarar.

Foi desconcertantemente que Mirella cumprimentou Bentinho. 

Não podia acreditar no que aquele jovem havia se transformado. Bentinho era forte, alto, tinha músculos definidos nos lugares em que hoje percebia gorduras excessivas. A aparência jovial e máscula deu lugar a um homem com aspecto sujo e desbotado. Estava ali, à sua frente uma figura grotesca. Mirella deu graças a Deus por ter sido desprezada por alguém que, definitivamente, não a merecia. Não que Mirella desse muita importância para aparência, nesse caso, o que se via exteriormente só refletia um interior escasso de valores nobres. Conversa vai, conversa vem e Bentinho não despregava os olhos dela. Sentindo certo incômodo, não via hora de acabar logo com aquele encontro. Bem que ele tentou arranjar desculpas pelo que fez no passado, articulando mil argumentações que hoje não convencem mais. Se Bentinho achava que este seria um reencontro amoroso, perdeu sua viagem. Ela cortou toda e qualquer tentativa de intimidade. No final da conversa, após alguns copos de cerveja, despediram-se com palavras de porvir às quais Mirella jamais cumpriria.

Mais um capítulo de sua vida encerrado.

Saiu daquele lugar respirando aliviada:

- Até que valeu a pena! Sinto uma leveza quase cósmica! 

Diante daquele homem a quem deu uma parte de sua vida por amor e por quem fora rejeitada, sentiu-se, de certa forma, vingada! Não precisou articular sequer ofensas, a sua presença o fez por ela: uma mulher linda, madura, segura e totalmente refeita!

Naquela tarde Mirella estava tão bem que nada lhe tiraria o bom humor. Aproveitou que estava num shopping perto de casa e como era época de presentes, resolveu se presentear com alguns mimos. Voltou para seu apartamento tão feliz que nem ligou para o fato de que mais uma vez aquele maldito elevador estava emperrado.

Subiu as escadas como quem sobe ao paraíso.

 

 

 

 

                                                                                                                                                                   

 


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